Na última edição da Philos, falamos sobre Tatá Luzia e sua importância fundamental para entendermos nossas raízes, especialmente aquelas anteriores à colonização. O fóssil, que faz parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, foi danificado no incêndio de 2018, que quase destruiu uma das mais importantes testemunhas geológicas das Américas.
Estima-se que Luzia tenha entre 11.500 e 13.000 anos. O que a torna ainda mais fascinante são suas características, semelhantes às de aborígines australianos: lábios grossos, nariz aberto, pele preta, cabelos grossos e ondulados — algo que, por muito tempo, confundiu a arqueologia. Hoje, a maioria dos pesquisadores concorda que ela atravessou o Estreito de Bering, como outros de sua época, chegando à América, onde evoluíram de várias formas, espalhando-se por todo o território.
Bom, como você sabe, eu não sou historiadora, geneticista ou arqueóloga. Aqui, você está lendo uma pesquisa voltada a adquirir conhecimentos que possam guiar minhas práticas artísticas, e isso me leva a Luzia, uma testemunha de tempos Pindorâmicos. Reconhecer que os primeiros nativos desta terra tinham pele preta e traços distintos do estereótipo asiático amplia nossa visão sobre quem são os atuais indígenas.
“Os brancos não entendem a diferença, e reduzem tudo a uma só coisa: o índio genérico.” —Ailton Krenak em Ideias para Adiar o Fim do Mundo
Algumas pesquisas mostram que a linhagem de Luzia e outros ancestrais similares sobrevive em povos como os Aimorés da Bahia e Minas Gerais, evidenciando o legado de nossa diversidade milenar. Basta olharmos para o exemplo de Lucy — importante fóssil de hominídeo que viveu na África há aproximadamente 3.2 milhões de anos — e veremos que foi ela quem transmitiu o traço genético da pele preta para os africanos modernos. Se Lucy, com milhões de anos de história, transmitiu esse traço genético, por que não seria possível que Luzia, que é apenas milenar, não conseguiria? A natureza desconhece a fobia social ao preto e, com sua sabedoria, é quem escolhe o que deve preservar para oferecer a todos a chance de prosperar em seus territórios. Para ela, a pele é apenas um órgão de proteção, que evolui conforme a exposição solar. Isso explica por que os indígenas dos sertões e da caatinga, adaptados ao clima quente, foram descritos como negros da terra pelos colonizadores.
Trazer à tona a evolução dos primeiros povos levanta questões importantes: quem são as pessoas que o Brasil chama de negros?
“No Brasil, a luta por uma identidade negra foi, por muitas vezes, uma luta pela visibilidade de um povo que se viu submisso à exclusão, mas isso não deve ser confundido com uma negação das origens indígenas ou a invisibilização das contribuições dos povos originários. A negação da diversidade dentro da população negra resulta no apagamento da identidade indígena e de outras influências, levando a um processo de homogeneização cultural e racial.” —Kabengele Munanga
Os negros, são apenas os descendentes africanos ou também são os descendentes indígenas de pele escura? Após cinco séculos lutando lado a lado contra o colonizador, Afrodescendentes e Pindorâmicos não se misturaram além da guerra? Onde estão os afro-indígenas no IBGE? Quantos são os frutos desse amor?

Eu, por exemplo, estou aqui! Nasci em um território ancestral, Payaya, há muito tempo dominado pela mineração. Cresci vendo o meu povo, mesmo com raízes indígenas evidentes ainda hoje, isolado no sertão, longe das áreas urbanas, se identificar como negro, mesmo não tendo parentesco afrodescendente. Essa disforia acontece por não se reconhecerem no estereótipo midiático do indígena claro.
Não sendo cor de castanha, com olhos asiáticos e cabelos lisos, sentem-se pretos demais para se reconhecerem enquanto Pindorâmicos — uma identidade diluída pela mestiçagem forçada, por meio de abusos e políticas de branqueamento. Então, será que são meus parentes que perderam a lógica, ou perder a noção de quem se é, é uma consequência das picaretagens históricas de um parasita chamado Brasil? Este nosso pedaço de Abya Yala (América) foi povoado também por africanos sequestrados e brutalmente trazidos, despojados de tudo, tratados como sub-humanos. Estes que, uma vez aqui, foram acolhidos pelos nativos indígenas, principalmente por reconhecerem que também eram vítimas da ganância portuguesa.
Como você já deve ter percebido, não há limite para a perversidade na filosofia de branquitude. Os colonizadores empregaram violência extrema, destruindo aldeias, matando homens e sequestrando mulheres e crianças. As técnicas de genocídio não eram apenas físicas, mas também culturais e psicológicas. E para impedir os incansáveis guerreiros indígenas, os Tugas reagruparam populações nativas dominadas em uma mesma área cercada, para controlá-las e usá-las como barreiras contra ataques. Era um processo cruel de desintegração das estruturas sociais Pindorâmicas e de assimilação forçada. Não bastasse isso, ao longo de séculos, muitos povos foram obrigados a se converter ao cristianismo e abandonar suas crenças e práticas culturais.
É daí que surgem as “reservas”. Um conceito colonial que, na prática, “propunha paz” a um povo indígena, mas com um preço alto: ter que abrir mão de tudo o que é seu e se restringir a um pequeno pedaço de terra, muitas vezes em regiões escassas ou de difícil acesso. As reservas, na verdade, eram um dispositivo de confinamento, criado para limitar os territórios indígenas e facilitar o controle e a exploração dos recursos naturais ao redor dessas terras. Era a forma que os colonizadores encontraram para garantir que os indígenas não tivessem mais a liberdade de se organizar, resistir ou retomar suas terras ancestrais. Nesse processo, muitos povos originários que não tiveram nem mesmo uma pequena reserva foram forçados a abandonar a natureza, tradições, perderam suas línguas, formas de organização social e foram destituídos de tudo o que compunha o seu próprio ser indígena.
Como enfatiza Silvio Almeida:
“As classificações raciais não são neutras; elas servem a um projeto político.”
A fronteira imaginária chamada “reserva” não só limitava o território desses nativos, mas também espalhava a ideia branca eugenista de “pureza”. Assim, todos os que saíam dali não eram mais “índios puros”, mesmo que saíssem fugindo de conflitos, se tornariam não-indígenas, apagando sua ancestralidade. O ex-indígena seria forçado a se identificar com apenas uma cor: “pardos” para os mais claros e “negros” para os mais escuros.
Esse processo gerou sérios problemas que ainda persistem, como o não reconhecimento dos descendentes indígenas e a perpetuação de estereótipos que tentam afirmar uma ancestralidade indígena. No entanto, essa construção estereotipada vem acompanhada de uma repressão social que faz com que o indivíduo, mesmo sendo estigmatizado, não se sinta legítimo para declarar sua ancestralidade. A identidade indígena passa a ser reconhecida apenas naqueles que vivem em reservas ou guardam contato direto com seu povo originário, marginalizando todos os outros que não se enquadram nesse modelo. Dessa forma, muitos daqueles que perderam a capacidade de reconhecer sua herança indígena buscaram uma aproximação com os movimentos negros, que, de certa forma, representavam um espaço de reconforto, já que, por séculos, compartilhamos a luta anticolonial. No entanto, embora essa adesão tenha sido, em muitos casos, amistosa, ela também contribuiu para a continuidade do projeto europeu de apagamento, que historicamente desvalorizou e folclorizou a identidade indígena.

Considerar um descendente indígena de pele escura como “apenas negro”, ou até mesmo desconsiderar a existência do afro-indígena, forçando-o a se reconhecer exclusivamente como negro ou pardo, é colaborar com a perpetuação do colonialismo. Trata-se de reduzir, tanto numérico quanto socialmente, as vozes Pindorâmicas, homogeneizando-as com as de indivíduos Africanos que não possuíam terras nesta terra — o golpe está aí! Essa simplificação é uma armadilha para o imaginário coletivo, pois facilita o contínuo roubo de terras, uma vez que o ex-indígena, agora identificado como negro, torna-se sem terra. Como resultado, indígenas aldeados, seus descendentes e afro-indígenas enfrentam ainda mais barreiras para se organizar e reivindicar a herança ancestral que lhes pertence, a Pindorama. Esse processo assegura que o projeto colonial brasileiro continue a privilegiar os descendentes europeus, enquanto impõe mais violência e direitos mínimos para nós, os não-brancos.
“A negação da nossa história é uma das formas de controlar nossas identidades.”
—Beatriz Nascimento
Em 2020, nesta primeira parte da minha pesquisa, questionei a identidade hetero-racial, uma categoria eugenista que busca purificar tudo, eliminando qualquer tipo de pluralidade, e que impõe um sistema de categorias fixas e opostas. O sistema nos força a caber em uma ou outra caixa, sem nos permitir afirmar com liberdade as complexidades que nos formam. A convivência entre povos e as identidades multifacetadas, que aqui são simplificadas como “pardas” pelo IBGE, refletem o desejo do sistema colonizador e racista de impor uma dicotomia que o mantém intacto e operacional. Para ele, ou você é um, ou você é outro — sem espaço para intermediários, sem nuances, sem incertezas ou interseções. O sistema que usou a mestiçagem como uma ferramenta para nos apagar, pardifica toda e qualquer mistura, se recusa a garantir que o mestiço possa se ver como um ser inteiro de múltiplas heranças.
Ao estudar quem são os Pindorâmicos, acabo conhecendo a mim mesma em todas as minhas nuances e entendo que os meus fizeram o seu melhor para que eu chegasse até aqui viva. Eu sou fruto da força que antecede a ideia de raça, mesmo socialmente tendo que lidar com ela. Valorizar indígenas aldeados, favelados, urbanizados, seus descendentes mestiços e seus aliados afrodescendentes é reorganizar para nos fortalecer contra as mazelas que o Brasil nos propõe. De tudo o que tenho lido, posso afirmar que Pindorama sempre foi terra de muitos movimentos, migrações e acolhimentos, mas nunca foi, nem será, lugar de submissão. 500 anos não são quase nada quando se conhece a grandiosidade da existência indígena e africana. Buscar intimidade com a força da minha gente é contribuir para a criação de novos imaginários coletivos que auxiliem reencontros. Afinal, todos desejamos voltar para casa, não necessariamente para a aldeia ou para África, muito menos para os CEPs que esse parasita nos impõe, mas para o reencontro de si, retomar em nós a ancestralidade milenar de nossas raízes.
“Os brancos nos querem separados, mas nossa força está na união com a terra e com os outros povos.” —Davi Kopenawa

Thaís Zakï Tembo (Senhor do Bonfim, Bahia, BA) é uma artista plástica e escritora autodidata, nascida em uma área de mineração ilegal no Centro-Norte da Bahia, onde o garimpo de esmeraldas ainda perpetua práticas análogas à escravidão em antigos territórios do povo Payaya. Atualmente, é mestranda na École Nationale Supérieure D’arts de Paris — Cergy, na França. Em seu trabalho, Thaís recicla resíduos da mineração para desenvolver um material escultural próprio, neutralizando os efeitos nocivos da poeira de Maracacheta. Sua prática aborda questões ambientais, sociais e raciais, especialmente na relação entre ser humano e natureza, expressa na dualidade entre água e exploração mineral, ou Brasil e Pindorama. Por meio de crônicas escritas, esculpidas ou pintadas, ela busca dialogar sobre a perfuração constante de aquíferos, processos que aceleram a extinção de espécies, incluindo a humana. Além disso, cria dispositivos que auxiliam no resgate de memórias e na formação de novos mitos. Suas investigações atravessam um território rico e ancestral, em confronto com uma realidade social que se distancia dos mais básicos direitos humanos e das devidas proteções ao meio ambiente.